domingo, 26 de setembro de 2010

O amor na prática é sempre ao contrário

Meu amor chegou pra mim como quem não tem pressa: calmo, manso e cheio de vontade. Veio aos poucos, como quem não quer nada, e me fez assim: só assim, sem meios-termos. Não me lembro quando foi exatamente que perdi o controle de tudo. Quando dei por mim, já estava lá. Hoje, ontem e em todos os outros dias, quando saí de casa apressada, só pensei em ir ao encontro desse olhar que tem me feito ser cada vez menos eu. Cada vez mais nós. E você, quando sorri, me faz ter cada vez menos vontade de ser infeliz.
Tenho me perdido todos os dias tentando descobrir em algum vestígio seu as coisas que você gosta, o que você quer de mim, o que quer que eu queira de ti. Ouço o Cazuza cantar que o amor na prática é sempre ao contrário, é sempre ao contrário. E mesmo que eu tente me manter sóbria, a verdade é que essa embriaguez me encanta. Porque paixão é coisa que deve se viver assim: no silêncio. E se eu digo que te amo, é porque estou amando não te conhecer.

terça-feira, 13 de julho de 2010

É que você é tão contente e tem um brilho tão bonito nos olhos que eu tenho medo de te endurecer com as minhas angústias.

domingo, 2 de maio de 2010

4 corpos e um amor inacabado

Naquele toca-discos antigo o vinil continuava a tocar, soando as notas de um passado amorfo. Tic-tac-tic-tac, ainda ouço o relógio que te mandava sempre ir embora, logo naquelas horas que o que a gente mais queria era ficar. Sempre que você vinha trazia a chuva, que molhava sempre os pés de toda a gente que andava lá fora, que sentiam sempre o sangue da sua ferida na água que corria. Era ferida velha, ferida branca, que doía só quando você vinha. Meu sorriso também vinha contigo, com a garrafa de cerveja quente no tempo frio, pra esquentar o coração com coisa ruim, você dizia.
Tinha também aquele sábado que ficava com cara de domingo, no dia em que as almas resolviam descansar só pra deixar a gente viver em paz. Era sempre você que trazia aquele cheiro de cidade empobrecida, de gente quieta e sem ter pra onde ir. Pombas. Ratos. Restos. Restos de mim e de você, sempre ali, inclinados pra ver o que tinha lá fora na calçada. Sei que nunca fui cautelosa com as palavras, por isso, hoje te digo, por isso nunca quis que me fizesse perguntas. Com as palavras, a gente mente, e eu só queria ter a chance de não falar.
Hoje aquilo que de mim só você sabia, já não é mais, e eu queria poder te contar. Talvez um dia você descubra que a vida não é uma só, a vida é múltipla, a vida não é uma transformação de algo permanente. Você vai descobrir no corpo daquela gente sem cabeça que nem sempre tudo tem que fazer sentido, que nem sempre um braço serve pra abraçar e uma perna pra andar. Aqueles corpos esquizofrênicos, nas suas não-totalidades, um dia vão te mostrar que não é porque uma coisa existe, que ela tem que: ser. Você vai se sentir pesado quando aqueles corpos passarem a ter cabeça, porque o olhar machuca, e você vai descobrir que um corpo é bem mais bonito de se ver sem a sua parte racional, e vai ter vontade de ser só um corpo também, um corpo que fala, um corpo que sente, um corpo que é.
Você descobrirá que a verdade é sempre a falta, e vai ter vontade de sumir quando me encontrar na sua porta esperando ter de volta um corpo de mim que você levou.

sábado, 1 de maio de 2010

De quando eu tinha doze anos

Sei
Que o que te trouxe até aqui
Foi a angústia
De não ter onde ficar

E que agora
Mesmo que você não queira
Sabe que aqui
É o seu lugar

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os dias têm tido tanto sentido que até o sentido de sentir alguma coisa já passou. Até a fome, que bate sempre à porta quando as necessidades vitais são esquecidas em troca de vazios subjetivos, já passou. Nas frases mal ditas a gente sabe que fica sempre aquela coisa que alguém não soube falar, e a ausência de tradução se faz presente. Talvez a indiferença se torne mais do que pálida, e a gente se cumprimente vez ou outra perguntando da vida. Mas a tradução sempre falta. E o que fica é só vontade.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Angst

Começo olhando pela janela o agitar do mar, suas ondas indo e vindo indo e vindo indo e vindo. Depois de um dia de desapegos, nada como uma janela pra olhar o mundo de cima. Tem sido fácil expurgar lamúrias sobre a minha sede de gente que não passa, assim boto a culpa dos desencantos nelas e mantenho o narciso que há em mim. Digo que sou assim, porque sou mesmo. O humano em si é egoísta, quero ver provarem o contrário. Tenho evitado me olhar no espelho, com medo de ver refletido na minha pupila o meu próprio horror. Cada passo que dou tem sido tentando ser novo, mas sei que não há nada de novo em tentar inovar. "O novo já é velho faz tempo", e você me conta uma mentira e eu acredito. Diz que o que comprou foi pra mim, que o você me deu é de si e que o seu olhar não é de aflição.
Toda noite sonho com quem não conheço.
Todo dia é um devir do amor.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Fingindo ser a farsa

Dizem que quando a insatisfação consigo mesmo chega no limite, é que a gente deve parar. Parar de fazer o que incomoda, de ser o que você aponta no outro como defeito. Devemos parar de transcender. Parar de respirar.
Desmascarar a vida não tem sido fácil, meu irmão. Há sempre aquele dedo que te aponta como sujo, aquele olhar que te olha como louco. E quando você está sozinho, não há quem estenda a mão. Estão sempre te pedindo, te pedindo, te pedindo. "Me dá mais um pouco de você, porque o que eu tenho de mim não é suficiente". Aí você dá. Você dá, dá, dá, e fica sem. Fica sem ti.
Roubam a tua identidade como quem tira a inocência da criança: você passa a se perceber como nulo, como insuficiente, como mau. Aí a consciência disso te faz ser a farsa. Porque é isso que eles querem de ti: que você pare de existir para si próprio.